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O tamanho da casa não determina o tamanho do projeto

Uma casa de 60 m² pode ter um potencial enorme. Uma casa de 300 m² também!

A área disponível cria condições diferentes, naturalmente. Cada metragem traz suas próprias limitações, possibilidades e decisões. O trabalho do arquiteto é, entre outras coisas, entender essas condições e extrair delas o melhor resultado possível.

Em um projeto pequeno, alguns centímetros podem mudar completamente a experiência de um ambiente. Uma abertura bem posicionada pode levar luz para dentro de um ambiente que antes parecia menor. Uma cozinha integrada pode ampliar a percepção do espaço. Um móvel pode cumprir mais de uma função.

Existem casas grandes com ambientes pouco utilizados, circulações excessivas e espaços que foram criados para preencher metragem. Também existem casas pequenas nas quais cada ambiente parece encontrar exatamente o seu lugar. O que determina essa diferença é a qualidade das decisões.

Em um dos projetos da SAU, uma residência de aproximadamente 60 m² foi organizada para receber dois dormitórios, sendo uma suíte, sala e cozinha integradas, lareira, área gourmet e piscina. A metragem é uma informação importante para entender o projeto, mas ela sozinha não explica a experiência de morar ali.

Existe uma parte da arquitetura que aparece na implantação, na posição das aberturas, na orientação da casa, na relação entre os ambientes, nos percursos, nos acessos, na estrutura, nas instalações e na maneira como cada decisão interfere nas outras.

É uma parte menos fotogênica do trabalho, porém ali boa parte da qualidade de um projeto acontece, as vezes na ventilação cruzada bem pensada que pode melhorar significativamente a sensação de conforto de uma casa. Ou na orientação solar que pode definir quais ambientes recebem determinada quantidade de luz ao longo do dia. No zoneamento que pode aproximar aquilo que precisa funcionar em conjunto e afastar aquilo que precisa de privacidade.

A posição de uma esquadria pode transformar uma parede em uma relação com o exterior!

O próprio Código de Obras de Pelotas estabelece entre seus objetivos questões como conforto, higiene, segurança, habitabilidade, durabilidade e incentivo a novas tecnologias construtivas. O Plano Diretor, por sua vez, traz entre suas diretrizes a busca por melhores condições de permeabilidade e iluminação natural nas edificações.

Num projeto arquitetônico o layout não é simplesmente colocar os móveis dentro de uma planta. Cada posição interfere em alguma coisa, o projeto vai construindo relações antes mesmo de a obra começar. Por isso, técnica construtiva e organização espacial não deveriam ser tratadas como assuntos separados. A escolha do sistema construtivo interfere em vãos, estrutura, instalações, custos, prazos e possibilidades de alteração.

Uma casa precisa funcionar para quem mora nela!

Para quem estamos projetando?

Para quem vai morar ali ou para quem vai olhar para as fotografias depois? Um projeto pode ser admirado por outros arquitetos e fornecedores, gerar boas fotografias e receber elogios pela escolha dos materiais. Ainda assim, a pessoa que mora ali pode sentir que falta espaço para guardar as coisas, que o sofá está mal posicionado, que o sol incomoda em determinado horário ou que o caminho até a lavanderia não faz sentido.

Na rotina a arquitetura encontra sua medida mais verdadeira. É quando o morador começa a ocupar o espaço que o projeto passa a ser testado.

No projeto residencial B32 do loteamento Quinta do Lago em Pelotas, por exemplo, a intenção declarada foi valorizar a convivência através de espaços mais livres, conectados e integrados, permitindo que a rotina acontecesse de maneira natural e compartilhada. A luz natural também foi incorporada através de grandes aberturas, rasgos internos e elementos zenitais.

As diversas inteligências artificiais disponíveis adoram usar a palavra propósito (e nós replicamos!). Ela está em apresentações, conceitos, memoriais e textos de divulgação.

É uma palavra importante.

Mas propósito, em arquitetura, precisa aparecer também quando ninguém está lendo a apresentação. Se o conceito fala sobre convivência, isso precisa estar na organização dos ambientes. Se fala sobre luz natural, isso precisa aparecer nas aberturas e na implantação. Se fala sobre acolhimento, isso precisa ser percebido na escala, nos materiais, nos percursos e na maneira como as pessoas ocupam o espaço.

A arquitetura precisa sustentar aquilo que foi dito.

Existe muita arquitetura sendo feita para ser vista e isso é um dos efeitos mais interessantes e difíceis do nosso tempo, porque a arquitetura passou a circular como imagem. Isso trouxe possibilidades enormes para a profissão, aproximou pessoas de projetos que antes seriam inacessíveis e ampliou o repertório de quem projeta. Mas ao mesmo tempo, criou uma espécie de linguagem compartilhada onde determinados materiais aparecem repetidamente e certas fachadas se tornam reconhecíveis. A referência deixou de ser uma ferramenta e passou a ser um destino.

Quanto daquilo que estamos projetando realmente pertence às pessoas que vão ocupar o espaço?